MEI com CNAE de transporte: como funciona?
Se você quer abrir um MEI com CNAE de transporte, a primeira coisa que precisa entender é simples: transporte no MEI não é tudo a mesma coisa.
Muita gente joga tudo no mesmo balaio e trata como se “trabalhar com transporte” fosse uma atividade única. Só que não é. Dentro do MEI, transporte pode significar:
- entrega rápida;
- malote;
- motorista por aplicativo;
- mototáxi;
- carreto municipal;
- transporte rodoviário de carga;
- mudanças;
- transporte de produtos perigosos.
E cada uma dessas realidades pode levar a um CNAE diferente, uma ocupação diferente e, em alguns casos, até a um regime diferente, como acontece com o MEI Caminhoneiro.
Resposta curta
Se você quer um resumo direto antes de entrar nos detalhes, é este:
| Tipo de atividade | Exemplo de ocupação no MEI | CNAE | Regra mais comum |
|---|---|---|---|
| Entrega rápida | Motoboy Independente / Bikeboy | 5320-2/02 | MEI comum |
| Malote e courier | Entregador de Malotes Independente | 5320-2/01 | MEI comum |
| Passageiros | Motorista (por aplicativo ou não) Independente | 4923-0/02 | MEI comum |
| Mototáxi | Mototaxista Independente | 4923-0/01 | MEI comum |
| Carreto municipal | Transportador(a) Municipal de Cargas Não Perigosas (Carreto) Independente | 4930-2/01 | MEI comum, em muitos casos |
| Transporte rodoviário de carga | Transportador Autônomo de Carga | 4930-2/01, 4930-2/02, 4930-2/03, 4930-2/04 | Pode entrar no MEI Caminhoneiro |
O ponto central é este: não existe “CNAE de transporte” único para MEI. O enquadramento depende do que você realmente faz na rua, no veículo e na operação.
Primeiro: o que muda quando o CNAE é de transporte?
Quando o MEI escolhe uma atividade da área de transporte, ele não muda só o nome da ocupação. Em muitos casos, ele muda também:
- a natureza do serviço;
- a incidência de ISS ou ICMS;
- a necessidade de olhar para exigências regulatórias da atividade;
- o enquadramento entre MEI comum e MEI Caminhoneiro;
- o limite de faturamento anual.
Ou seja: escolher um CNAE “mais ou menos parecido” aqui é receita pronta para dor de cabeça.
Quais atividades de transporte são permitidas no MEI comum?
O MEI comum aceita várias atividades de transporte e entrega. Entre as mais conhecidas, estão estas:
Entrega rápida
- Motoboy Independente — CNAE 5320-2/02
- Bikeboy (Ciclista Mensageiro) Independente — CNAE 5320-2/02
Esse CNAE conversa com a lógica de entrega urbana rápida, como:
- delivery;
- entrega de encomendas;
- entrega de mercadoria em curta distância;
- última milha;
- entrega para apps e comércios locais.
Malote e courier
- Entregador de Malotes Independente — CNAE 5320-2/01
Esse enquadramento faz mais sentido quando a atividade tem perfil de:
- malotes;
- documentos;
- coleta e entrega por terceiros;
- courier;
- volumes fora da lógica clássica de delivery rápido.
Transporte de passageiros
- Motorista (por aplicativo ou não) Independente — CNAE 4923-0/02
- Mototaxista Independente — CNAE 4923-0/01
Aqui já estamos falando de transporte de pessoas, não de encomendas.
Esse detalhe é óbvio no papel, mas muita gente ainda mistura:
- motorista por aplicativo;
- motoboy;
- carreto;
- transporte de carga.
Não misture. Cada um tem lógica própria.
Carreto municipal
- Transportador(a) Municipal de Cargas Não Perigosas (Carreto) Independente — CNAE 4930-2/01
Esse CNAE costuma fazer sentido para:
- carreto;
- transporte de carga dentro do município;
- pequenas mudanças locais;
- transporte municipal de volumes e cargas não perigosas.
Esse já é um tipo de atividade que fica na fronteira entre o MEI comum e o universo do transportador autônomo de cargas.
Quando entra o MEI Caminhoneiro?
Aqui está a virada mais importante do tema.
O MEI Caminhoneiro é uma modalidade específica para quem atua como transportador autônomo de cargas em ocupações da Tabela B das atividades permitidas.
As ocupações desse regime são:
| Ocupação | CNAE |
|---|---|
| Transportador Autônomo de Carga - Municipal | 4930-2/01 |
| Transportador Autônomo de Carga Intermunicipal, Interestadual e Internacional | 4930-2/02 |
| Transportador Autônomo de Carga - Produtos Perigosos | 4930-2/03 |
| Transportador Autônomo de Carga - Mudanças | 4930-2/04 |
Isso significa que nem todo transporte no MEI vira MEI Caminhoneiro.
Essa modalidade é pensada para quem atua com transporte rodoviário de cargas de forma mais específica. Então, por exemplo:
- motoboy não é MEI Caminhoneiro;
- bikeboy não é MEI Caminhoneiro;
- motorista por aplicativo não é MEI Caminhoneiro;
- mototaxista não é MEI Caminhoneiro.
O MEI Caminhoneiro é para carga, não para qualquer atividade com roda e combustível.
O mesmo CNAE pode aparecer no MEI comum e no MEI Caminhoneiro?
Em alguns casos, sim. E é aqui que muita gente se enrola.
O CNAE 4930-2/01, por exemplo, pode aparecer:
- no MEI comum, como Transportador(a) Municipal de Cargas Não Perigosas (Carreto) Independente;
- e também no MEI Caminhoneiro, como Transportador Autônomo de Carga - Municipal.
Algo parecido acontece com mudanças, que também podem entrar nessa zona de sobreposição.
O que isso quer dizer na prática?
Que nem toda atividade de carga municipal obriga o empreendedor a virar MEI Caminhoneiro.
Se a sua operação for restrita a atividades que também já são aceitas no MEI comum, pode existir espaço para permanecer no modelo tradicional, especialmente se você:
- não precisa do limite maior de faturamento;
- quer manter possibilidade de incluir outras atividades permitidas do MEI comum;
- não atua em carga intermunicipal, interestadual, internacional ou produtos perigosos.
Agora, quando a atividade entra em transporte autônomo de cargas intermunicipal, interestadual, internacional ou produtos perigosos, a conversa muda e o enquadramento no MEI Caminhoneiro ganha peso real.
Diferença entre MEI comum e MEI Caminhoneiro
Essa é a parte que mais interessa para quem trabalha com transporte rodoviário de carga.
| Ponto | MEI comum | MEI Caminhoneiro |
|---|---|---|
| Limite anual de faturamento | R$ 81.000,00 | R$ 251.600,00 |
| INSS no DAS em 2026 | R$ 81,05 | R$ 194,52 |
| Pode ter 1 empregado? | Sim | Sim |
| Pode ter outro CNPJ? | Não | Não |
| Pode abrir filial? | Não | Não |
| Tipo de atividade | Ocupações gerais permitidas | Ocupações exclusivas de transportador autônomo de cargas |
Em ambos os casos, ainda pode haver acréscimo de ISS ou ICMS no DAS conforme a atividade.
Em português claro: o MEI Caminhoneiro existe para dar um enquadramento mais adequado ao transportador autônomo de carga, inclusive com limite de faturamento bem mais alto do que o MEI tradicional.
Em 2026, quanto o MEI de transporte paga no DAS?
Para não deixar esse ponto no ar, vale colocar em termos objetivos.
MEI comum em 2026
O DAS parte de:
- R$ 81,05 de INSS
- + R$ 5,00 de ISS, se a atividade for contribuinte desse imposto
- + R$ 1,00 de ICMS, se a atividade for contribuinte desse imposto
MEI Caminhoneiro em 2026
O DAS parte de:
- R$ 194,52 de INSS
- + R$ 5,00 de ISS, se aplicável
- + R$ 1,00 de ICMS, se aplicável
O detalhe importante aqui é que o MEI Caminhoneiro recolhe 12% sobre o salário mínimo, enquanto o MEI comum recolhe 5%.
ISS ou ICMS: qual imposto entra no transporte?
Depende do tipo de atividade.
Esse é outro ponto que costuma gerar confusão. Dentro do transporte, há CNAEs com lógica mais ligada a ISS, outros com ICMS, e alguns em que a leitura tributária precisa ser observada com cuidado de acordo com a atividade e a operação.
Na prática, o que você precisa guardar é isto:
- transporte municipal costuma estar mais perto do ISS em vários enquadramentos;
- transporte intermunicipal, interestadual e internacional de cargas já entra em uma lógica fortemente ligada ao ICMS;
- entrega rápida, malote e passageiros têm leitura própria conforme a ocupação.
O erro clássico é achar que todo “transporte” paga a mesma coisa. Não paga.
ANTT e RNTRC: quando isso entra no jogo?
Se a sua atividade é de transporte rodoviário remunerado de cargas, especialmente no universo de TAC, não basta olhar só para o MEI.
Existe também a camada regulatória da ANTT.
O RNTRC é o registro obrigatório para quem explora atividade econômica de transporte rodoviário remunerado de cargas. Então, dependendo do seu caso, abrir o MEI não encerra a regularização. Ele é só uma parte dela.
Isso pesa mais para quem atua como:
- transportador autônomo de cargas;
- carga intermunicipal;
- carga interestadual;
- mudanças;
- produtos perigosos;
- operação rodoviária de carga com perfil mais profissional do setor.
Em resumo: CNPJ certo não substitui registro regulatório quando a atividade exige registro regulatório.
Como escolher o CNAE certo no transporte
Antes de abrir o MEI, responda estas perguntas:
1. Você transporta o quê?
- pessoas;
- comida;
- documentos;
- encomendas;
- mercadorias;
- carga;
- mudança;
- produto perigoso.
2. Você opera onde?
- dentro do município;
- entre municípios;
- entre estados;
- operação internacional.
3. Sua atividade é entrega rápida ou transporte de carga?
Isso faz toda a diferença.
4. Você precisa de qual limite de faturamento?
- até R$ 81 mil pode caber no MEI comum;
- até R$ 251,6 mil já empurra o raciocínio para o MEI Caminhoneiro, quando a atividade for de carga.
5. Sua atividade exige ANTT/RNTRC?
Se for transporte rodoviário remunerado de cargas, você precisa olhar para isso com seriedade.
Erros mais comuns de quem abre MEI de transporte
1. Escolher o CNAE pelo nome “mais parecido”
Esse é o erro campeão.
A pessoa vê “transporte”, “motorista”, “entregador” ou “carga”, acha que tudo conversa entre si e abre no que parece mais perto.
Resultado: CNPJ torto desde o primeiro dia.
2. Confundir passageiro com carga
Motorista por aplicativo não é a mesma coisa que motoboy. Motoboy não é a mesma coisa que carreto. Carreto não é a mesma coisa que TAC interestadual.
3. Achar que todo transporte entra no MEI Caminhoneiro
Não entra.
O MEI Caminhoneiro é uma modalidade específica para transportador autônomo de cargas.
4. Ignorar o limite de faturamento
Tem gente que abre no MEI comum quando a operação já aponta para um limite muito acima do que o modelo suporta.
5. Esquecer a parte regulatória
Para certas operações de carga, não basta só formalizar o MEI. Também é preciso olhar ANTT, RNTRC e as exigências da atividade.
FAQ sobre MEI com CNAE de transporte
Pergunta
Todo CNAE de transporte pode ser MEI?
Não. O CNAE precisa estar dentro das ocupações permitidas ao MEI. Transporte é uma área ampla, e só algumas atividades específicas entram na lista permitida.
Pergunta
Motoboy entra em qual CNAE no MEI?
Em geral, Motoboy Independente — CNAE 5320-2/02, ligado a serviços de entrega rápida.
Pergunta
Motorista por aplicativo pode ser MEI?
Sim. A ocupação permitida é Motorista (por aplicativo ou não) Independente — CNAE 4923-0/02.
Pergunta
Carreto municipal entra no MEI comum ou no MEI Caminhoneiro?
Pode aparecer nos dois cenários, dependendo do enquadramento da atividade. O CNAE 4930-2/01 é um ponto de sobreposição importante entre MEI comum e MEI Caminhoneiro.
Pergunta
Quem faz transporte interestadual de carga pode ficar no MEI comum?
Aqui o cenário já aponta para o universo do MEI Caminhoneiro, porque a atividade de transportador autônomo de carga intermunicipal, interestadual e internacional está na Tabela B.
Pergunta
MEI Caminhoneiro pode faturar mais do que o MEI comum?
Sim. O limite anual é de R$ 251.600,00, enquanto o MEI comum segue com R$ 81.000,00.
Pergunta
Quem trabalha com carga precisa olhar só o CNPJ?
Não. Dependendo da atividade, também é preciso observar as exigências da ANTT e do RNTRC.
Conclusão
MEI com CNAE de transporte funciona, mas funciona por trilhas diferentes.
Uma coisa é:
- motoboy;
- bikeboy;
- malote;
- motorista por aplicativo;
- mototáxi.
Outra, bem diferente, é:
- transporte autônomo de carga municipal;
- carga intermunicipal;
- carga interestadual;
- mudanças;
- produtos perigosos.
É justamente por isso que o tema precisa ser tratado com precisão. O erro aqui não é só burocrático. Ele pode afetar faturamento, imposto, enquadramento e até a regularidade da atividade.
Se você vive do volante, da moto, da bike ou da carga, abrir o MEI certo é o começo. O resto é organizar a operação com clareza. E, para o MEI que precisa acompanhar receitas, despesas, alertas, limite do regime e visão financeira do negócio em um só lugar, vale conhecer a Kontaê.